
Ela era muito jovem, jovem a ponto da viçosidade da pouca idade ainda dar sustentação aos seus pensamentos. Pensava, de maneira desconcatenada, como faria pra se encaixar naquele mundo, porque, do seu ponto de vista, achava que tudo estava fora de lugar. Era aquela sensação que arrebata os privilegiados da pouca idade, ela sabia que estava tudo errado, discordava de tudo e sabia que a mudança era necessária, todavia, não sabia como nem por onde começar. Adorava ler, e tentava, com afinco, entender o mundo, mas como a vida ainda estava toda pela frente, sempre cogitava uma revolução, afinal, não concordaria em viver no mesmo carrossel de erros.
Então, andava em calças largas em si, e não se deixava cortar para nascer de novo. Era única e forte, e sonhava com o futuro. Adorava os sons que cantavam sua luta e sempre andava junto com os seus, também subversivos ao tempo vigente.
Todavia, o tempo não perdoa jamais, e a consciência, velha armadilha do tempo, aliada a outros fatores amigos seus, como o cotidiano, a responsabilidade, a cobrança e a expectativa fizeram da garota de tranças e ideiais fortes, mais uma cidadã contribuinte.Hoje, não mais calças largas, não mais dispende seu tempo projetando mudanças globais, e, como todos os cidadãos que pretendem entrar na roda da vida, gasta seu precioso tempo fazendo projetos pessoais, trabalhando exaustivamente e preocupando-se menos com o mundo.
Deixou meio de lado seus ideais sempre coletivos por uns individuais. Reduziu seu quadro de atuação. Mudou de profissão, e hoje gasta seus dias em fóruns e tribunais defendendo o interesse daqueles que podem lhe adoçar a boca no fim da labuta. Quanto a sua aparência, essa também nem de longe lembra a menina que sonhava com a metamorfose. Segue padrões, se atualiza e não enfrenta algo que possa deslocada do carrossel de erros.
Fraquesa? Responsabilidade? Falta de crença nos ideais? Pra falar a verdade, ninguém sabe onde a coisa se perdeu. O mundo cruel se encarrega de mudar as pessoas antes que elas o mudem. Mas, se assim não for, ele te castiga, te tira da roda, te priva de tudo e te faz um zumbi, símbolo da contracultura.
Não sei, não sei... esses dias me deu saudade das calças largas e dos ideais sonhadores daquela menina.
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